O que aprendi ao unir minha profissão a um sonho de criança

Hoje li um texto muito bonito da Maria Eugenia Mazzonetto que mexeu bastante comigo e com isso em que acreditamos: a possibilidade de viver uma vida mais simples. Viver de maneira simples é muito mais que diminuir gastos, comer coisas menos calóricas e fazer programas mais baratos, é também descobrir-se, encantar-se e dedicar-se àquelas coisas que você esqueceu ou que você não conhece ainda, mas que são maravilhosas e te fazem feliz. Este texto que compartilharei com vocês traz isso tudo e espero que vocês possam compreender o quanto ainda é “complexo” viver de uma maneira simples, porque precisamos abrir mão de muita coisa que é naturalizada em nosso cotidiano, mas, embora complexo, é libertador.

Aproveitem a leitura 🙂

O que aprendi ao unir minha profissão a um sonho de criança

Eu sempre gostei de moda; não no sentido de comprar roupas, mas de enxergar aquilo que usamos como uma representação do nosso ser, algo que fala sobre o que somos. Eu era encantada por esse universo, mas, quando comecei a trabalhar como estilista em grandes marcas e a entender melhor todos os processos, meu olhar foi se modificando. No começo era interessante saber como uma ideia virava uma peça vendida em grandes quantidades. Mas, quanto mais eu transitava por todas as etapas da indústria da moda, mais me decepcionava: a exploração de pessoas (vi fábricas em que costureiras pareciam estar em uma estufa de pintinhos amontoados, batendo a cabeça em lâmpadas incandescentes, enquanto costuravam para marcas que vendem um estilo de vida apaixonante); a cópia, quando presenciei uma estilista arrancar a etiqueta da peça original e apresentá-la como sua criação; os produtos sem alma (não precisa ser uma pessoa muito sensível para perceber que uma peça feita assim não tem vida); além de uma exorbitante margem de lucro, o que justifica a exploração da cadeia anterior e fortalece um distribuição desumana, subdesenvolvida. Foi aí que comecei a sentir o impacto da indústria da moda e de tudo o que ela gerava. Eu me sentia triste quando visitava fornecedores e via as condições de trabalho que, por mais legalizadas que fossem, ainda não me pareciam adequadas. Costureiras sem perspectiva de crescimento, num ambiente que não era confortável. Nas fábricas, há sinal sonoro para tudo, até para a hora de ir ao banheiro. Me lembro quando escutei aquele barulho pela primeira vez. Era assustador e me remetia a tantas coisas tristes. Eu acreditava que um ambiente mais inspirador poderia fazer com que aquelas pessoas trabalhassem mais felizes, e que pequenas mudanças poderiam ajudar nesse processo. Eu dizia: “Mas por que vocês não trocam esse som, não colocam algo mais agradável?”. E todos me olhavam com estranhamento e questionavam por que eu me preocupava com aquilo. Já no escritório, o processo atual de criação das peças se baseia em procurar inspirações em sites de fotos, fica só no computador. Quando você pensa em estudar referências em uma biblioteca, ou pesquisar ao ar livre, isso não é aceito. O que importa é apenas a margem de lucro e, nos lugares por onde passei, isso ficou claro. Decidi que não queria mais participar desse processo. Não era aquela moda que representava o que eu acreditava. Lembro que, quando entrei na faculdade, logo no primeiro dia de aula, escutei de uma professora que “a moda era a pele da cultura”. Comecei a perceber a necessidade de um respiro, de um silêncio no meio da confusão de uma empresa que não equilibrava a busca de lucros com pessoas e cultura. Eu queria fazer algo diferente, que tivesse um processo de valorização, de tempo e de conteúdo. Foi então que comecei essa busca, sem saber exatamente o que fazer. A gente floreia muito para fora, mas é olhando para dentro que encontramos as respostas. Elas estão ali. E minha resposta sobre o que fazer veio depois de uma aula de ballet.

Minha história com a dança começou quando eu tinha 6 anos. Minha mãe me colocou nas aulas de ballet porque eu era uma criança muito tímida, e não tinha noção espacial. Eu morava em Vinhedo, interior de São Paulo, e lembro da primeira aula que assisti. Aquela atividade ajudava a liberar minhas emoções e me apaixonei. Mas, quando entrei na fase da pré-adolescência, quis mudar tudo. Saí do ballet e até mudei de escola. Tempos depois, fi quei bem triste por ter largado as aulas de dança. Mas eu tinha falado tanto para os meus pais que queria sair, e por isso não tive coragem de pedir para voltar. Aos 14 anos, entrei num curso de corte e costura. E aí virei uma adolescente costureira. Enquanto minhas amigas iam fazer outras coisas, eu ia costurar! Aprendi a prática com a Tidinha, uma costureira muito querida na minha cidade. Era uma relação especial. Fui cursar moda em São Paulo e, depois que me formei, aos 21, retomei o sonho de voltar para as aulas de ballet. Era um sonho que nunca tinha morrido para mim. O ballet me ensina muito sobre como lidar com a vida: a gente aprende a ter disciplina, a saber esperar, a errar e acertar, a não desistir. E esses aprendizados levo hoje para o meu dia a dia, sempre. E foi dentro desse contexto, de retorno às aulas, dessa minha frustração com o mercado da moda, que encontrei um novo caminho profi ssional. Eu havia jogado para o universo e pedido que me ajudasse a fazer algo que amo e com mais sentido. Foi depois de uma aula que veio a ideia de aliar essas duas pontas, essas duas histórias. A primeira, de uma bailarina apaixonada, que havia interrompido as aulas de ballet e que retornara quando adulta, e a segunda, de uma estilista que trabalhou em grandes marcas e que percebeu que a moda como é tratada hoje não representa a sua essência. Criei, assim, uma marca de roupas de ballet, a minha própria maneira de estar inserida nesse universo encantador, que me realiza profissionalmente e também concretiza um sonho de criança. Foram dois anos de trabalho intenso para o nascimento da Verse. O nome veio a partir do verso, do poema, mas também do verso da roupa e de nós mesmos. Do nosso interior. Eu me sinto alguém muito mais para dentro do que para fora. E acredito muito na busca pelo nosso autoconhecimento. Quero construir uma relação mais profunda com nosso corpo, com respeito, com gratidão. Adoro imaginar o modo de vida de quem escapa para uma aula de ballet, o vestir, o se transformar, o criar uma persona. Somos feitos de várias personas e amo essa ideia. Gosto de pensar no momento de concentração da aula, quando abandonamos o digital e viramos analógicos. No inspirar e expirar, na contagem de tempo… É um momento mágico e muito inspirador, um encontro com o eu, no meio da confusão e da correria do dia a dia. Essa constante busca da nossa identidade me movimenta, entrar nesse espaço interno, situar e confortar-se. É nisso que me inspiro quando crio cada peça das coleções da Verse.

Enquanto desenvolvia minha marca, ainda permaneci, por dois anos, no meu antigo trabalho. Foi muito desafiador, pois eu chegava em casa querendo produzir com o coração, mas minha energia já estava contaminada por ter feito algo em que eu não acreditava ao longo do dia. Foi um período de bastante amadurecimento, de encontrar o meu caminho. Quando a marca para a qual eu trabalhava foi suspensa, fui demitida. Foi, então, o momento propício para me reconectar comigo e com o processo de criação da minha linha de roupas. Claro que, sem a renda fi xa de antes, precisei reformular meu estilo de vida. E isso foi ótimo, pois sinto que saí de um mundo de consumo. Você vê que dá para viver com as roupas que já tem. Se vai viajar e precisa de um casaco, pode pegar um emprestado. Antes, eu só comia fora e, hoje, cozinho em casa. Dessa forma, tenho uma alimentação mais saudável. Acredito que isso me fez ter uma relação mais madura com o dinheiro. Atualmente, penso antes de gastar; não no sentido da mesquinharia, mas como uma reflexão maior, de questionar o que compro, se aquilo é realmente necessário. Eu acho que a Verse tem que refletir esses valores em que acredito. Acredito que estamos comprando sem pensar, sem necessidade. Então me engajo no movimento de que a moda é mais do que uma roupa; que podemos ser mais racionais ao adquirir uma peça; e que ela precisa nos representar. Isso faz com que a roupa tenha um tempo de vida maior. Não precisamos de mais e mais roupas no mundo, de acumulos desnecessários. De quebra, ainda tenho a sorte de trabalhar com pessoas que eu adoro e que amam o que fazem: Valeria é minha modelista e Gisele, a costureira. Elas são incríveis. A Valéria tem um ateliê em casa e, quando estamos lá, brinco com o filho pequeno dela, converso com a filha que faz ioga. Ela tem uma máquina de costura que pertenceu à avó. Isso tudo me traz um sentimento bom e penso que pessoas assim são essenciais para um resultado positivo. Acredito que essa vibração boa passa para a roupa. Não sou contra a importação, mas procuro valorizar a produção local, assim o impacto no ambiente também é menor, já que há menos gasto com transporte e menos poluição. Quero incentivar minhas clientes a cuidar das roupas para que a durabilidade seja maior e, quando elas não quiserem mais o produto, que me encaminhem. Assim, podemos destinar as peças para ongs que reaproveitam esses tecidos, reduzindo assim a geração de resíduos têxteis. A Verse se baseia em um movimento chamado slow, um convite para uma vida inspirada em valores simples e reais, na busca pelo equilíbrio, no sentir na pele e na alma o bem-estar, no entender que tudo está interligado e respeitar o mundo. Hoje, meu maior desafio é conseguir divulgar essa marca de forma consciente, gerando lucros, mas sem esse desespero do consumismo. Às vezes me sinto triste ou com medo, ainda mais diante do cenário econômico atual. Mas foco numa energia positiva, no meu sonho. E faço tudo o que posso direitinho, porque acredito que assim as coisas dão certo. Penso que lidar com o outro com respeito pode influenciar as pessoas positivamente. Cria um círculo virtuoso: passamos a exigir esse mesmo respeito em outras relações de consumo. Para mudar uma história ruim, precisamos fazer diferente, não dá para errar igual. E isso é uma das coisas que aprendi no ballet. Podemos ser e semear conceitos diferentes. No começo é difícil. Mas, assim como na dança, depois o movimento sempre flui.

MARIA EUGENIA MAZZONETTO é estilista e bailarina. Ama chás e acredita na beleza do verso, do interior e da poesia.

Pense em algo que você goste muito, pense em como isto está disposto em nossa cultura e reflita: “deve continuar assim?”. Sonhe alto e se esforce para concretizar tudo isso 🙂
Texto original aqui.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s